5.23.2011

Until We Bleed


Um corte. Único, o primeiro de muitos. Dor não foi repentina, veio lenta e morna. Sangrou. Acostumou-se, voltou a cortar-se. Doeu. Dor cresceu, ganhou todo emanharado sensorial. Ganhou cor, vermelho. Ganhou sentido, chão. Deu rumo em um mundo estreito. Com Machado no coração prisioneiro lembrou-se que “um desvão no telhado é infinito para as andorinhas”. No braço uma. Na sua frente, o mundo estreito que não lhe bastava mais. Daquela hora em diante queria o infinito que o desvão oferecia. Descobriu que sangrar sozinho não era vida. Até ali, nunca havia cicatrizado, nem visto o mar ou estrelas. Nunca sentiu o cheiro do sal, desenhou sereias ou sonhou com monstros. Nada viu, nem flores, nem abelhas ou provou maçãs no escuro da sua vida. Tinha com todas as forças protegido o coração e, no meio deste hercúleo trabalho, perdeu as chaves. Com o desvão na cabeça, todas as palavras e vozes nunca ouvidas preencheram os espaços. Sussurram elas coisas que o quebravam – coração – em mil e um pedaços. De frente ao penhasco aberto em seus pés, pulou. Voou. Fugiu pelo desvão montado na andorinha que um dia em segredo fez morada em seu braço.




"Voltemos à casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra, três vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas. Vê agora a neutralidade deste globo, que nos leva, através dos espaços, como uma lancha de náufragos, que vai dar à costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que sofreu um casal de pecados. Amanhã pode lá dormir um eclesiástico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de Terra, que lhes deu algumas ilusões."

Memórias Póstumas de Brás Cubas por Machado de Assis.

5.19.2011

O mal desconhecido é o ovo...

The City in the Sea by Edgar Allan Poe

Lo! Death has reared himself a throne
In a strange city lying alone
Far down within the dim West,
Where the good and the bad and the worst and the best
Have gone to their eternal rest.
There shrines and palaces and towers
(Time-eaten towers that tremble not!)
Resemble nothing that is ours.
Around, by lifting winds forgot,
Resignedly beneath the sky
The melancholy waters lie.

No rays from the holy heaven come down
On the long night-time of that town;
But light from out the lurid sea
Streams up the turrets silently —
Gleams up the pinnacles far and free —
Up domes — up spires — up kingly halls —
Up fanes — up Babylon-like walls —
Up shadowy long-forgotten bowers
Of sculptured ivy and stone flowers —
Up many and many a marvelous shrine
Whose wreathéd friezes intertwine
The viol, the violet, and the vine.
So blend the turrets and shadows there
That all seem pendulous in the air,
While from a proud tower in the town
Death looks gigantically down.

There open fanes and gaping graves
Yawn level with the luminous waves;
But not the riches there that lie
In each idol's diamond eye —
Not the gaily-jeweled dead
Tempt the waters from their bed;
For no ripples curl, alas!
Along that wilderness of glass —
No swellings tell that winds may be
Upon some far-off happier sea —
No heavings hint that winds have been
On seas less hideously serene.

But lo, a stir is in the air!
The wave — there is a movement there!
As if the towers had thrust aside,
In slightly sinking, the dull tide —
As if their tops had feebly given
A void within the filmy Heaven.
The waves have now a redder glow —
The hours are breathing faint and low —
And when, amid no earthly moans,
Down, down that town shall settle hence,
Hell, rising from a thousand thrones,
Shall do it reverence.

4.21.2011

Qual é a música No.1


Caros leitores amigos, o post de hoje é para dividir a trilha sonora do meu dia-a-dia aqui em Estocolmo. Escolhi onze (sim, onze, porque adoro número primo e ímpar) músicas entre tantas outras que encurtam as distâncias entre minha casa e a universidade, confortam quando sinto saudades e embalam minhas reboladas secretas sozinho no elevador. Trilha sonoras dos meus maiores segredos. A lista de hoje tem dobradinha com Adele:

Dance With Somebody (unplugged) by Mando Diao
Someone Like You by Adele
Daniel by Bat For Lashes
After Hours by We Are Scientists
I’m Into Something Good by The Bird and the Bee
Books From Boxes by Maxïmo Park
Beautiful Song by CSS
A Billion Balconies Facing The Sun by Maniac Street Preachers
Chelsea Dagger by The Fratellis
Record Collection by Mark Ronson & The Business Intl.
Rolling In The Deep by Adele

3.05.2011

Vida torta

Tenho uma relação de cumplicidade entre memória e comida. Sei que não sou o único, muito menos o último ao relatar gostos e doces lembranças. Hoje acordei com sabores da infância na cabeça. Senti o cheiro da pizza de sardinha que estava presente sempre em aniversários, o famoso bolo de abacaxi da minha mãe, o rocambole de chocolate da Ducildes. Este último perdido para sempre. Com a saudade na porta, resolvi assar uma torta de atum. Coisa simples, barata e carregada de pedaços vividos. A receita é fácil. Os ingredientes são 3 ovos, 2 xícaras de leite,1 xícara de óleo, 4 colheres de queijo parmesão, 1 colher de sal, 2½ xícaras de farinha de trigo,1 colher de sopa de fermento em pó e a estrela do dia, 2 latas de atum. Bater no liquidificador ou a mão os ovos, leite, óleo, queijo e acrescente a farinha e o fermento aos poucos. Eu misturei no óleo de canola, azeite. Com atum, juntei cebolas roxas picadas e pedaços de pimentos grelhados e conservados em azeite. Depois, é só colocar metade da massa na forma, cobrir com o recheio de atum - ou outro qualquer que preferir - e por cima, voilá, a outra metade da massa. Levar ao forno até dourar. O resultado está ai na imagem. Em breve, ela também vai virar memória.


Para sobremesa preparei o famoso “Segura Marido” da minha mãe. A receita é mais simples que o da torta de atum. Para os ingredientes 3 ovos, 1 lata de leite condensado, 1 litro de leite, 3 colheres de maizena, ½ fava de baunilha, 6 colheres de açúcar, frutas vermelhas da estação ou congeladas, 4 colheres de suco de laranja ou, se preferir como eu, vinho. Separe as gemas das clara e reserve as últimas. Nas gemas adicione o leite condensado, a fava de baunilha aberta e ¾ do litro de leite. Leve ao fogo, lembre-se de sempre mexer a mistura para não grudar no fundo. No restante do leite, acrescente a maizena e junte-o a panela com a mistura quente aos poucos e sempre mexendo para não encaroçar. Cozinhe até virar um creme, retire a fava de baunilha e coloque o resultado em uma vasilha que possa ir ao forno. Ao mesmo tempo, cozinhe as frutas com o suco/vinho para fazer a calda, não é necessário cozinhar muito. Com a calda, cubra o creme de baunilha. Não use todo o líquido, caso a calda fique muito aguada. Queremos o máximo de polpa e o mínimo de suco. A acidez da calda quebra o doce do creme, perfeito casamento de sabores. Agora chegou a vez das claras reservadas, que devem ser batidas até ficarem em ponto de neve. Acrescente o açúcar e rebata para virar suspiro. Cubra a combinação de creme e calda com o suspiro e coloque no forno (160 graus celsius) até o suspiro dourar e bom proveito querido leitor amigo.


2.13.2011

A lagarta


Abriu os olhos e não viu o sol brilhando em um céu azul. Vestiu-se e saiu. Andou à esmo e não viu crianças brincando, jovens se amando, ou a revolução da vida acontecendo diante dos seus olhos. Optou por não ver. Optou por não lavar o tanque de roupas sujas. Não via roupas para lavar, casa para limpar e também não procurou por nada. Era mais fácil deixar o pior entrar. Sem perceber o tamanho do egoísmo que sua condição era. Impunha sua tristeza. Sua dor era a maior, seus problemas eram os mais difíceis, suas vontades prioridades. Voltou para o seu casulo e optou por nunca virar crisálida. Crescer não era uma opção ou vontade. Nunca teve a obrigação de ser feliz, mas tinha o dever de lutar para estar vivo. Para quem assistia a tragédia, que era fruto da desistência, uma palavra: Preguiça.

2.05.2011

Luta de espadas


Palavra escrita, palavra pensada. Verbo. Palavra de longe que conforta a alma, alimenta vontades e desperta desejos. O poder contido em letras me encanta. Sou seduzido por ele e seu desencadear de turbilhões, sejam idéias ou ações. Escrever me alivia o corpo, descarrega o peso do dia. Ler, alimenta o espírito e põe gosto na boca. Hoje, agora ontem, o dia foi coroado com palavras, vontades, dragões e espadas.

1.05.2011

La sorte mia spietata

Madrugada em Estocolmo, neve lá fora e Bajazet em meus ouvidos. O ano novo começou lento. Veio abrindo espaço e continua crescendo. Como todo início deveria vir limpo. Porém, diferentemente da regra, este vem de cicatrizes. Do velho ele nasceu e nele ficaram marcas bem-vindas, outras nem tanto e algumas poderiam nunca terem acontecido. Nasceu velho, cheio de memória. Muitas delas incompletas, escritos sem letras, idéias sem formas, sentidos não provados, sentimentos não vividos. Meus fantasmas. Como conseguir seguir com tantas âncoras? Força? Fé? Cegueira branca. La sorte mia spietata.


Retrato de Andy Warhol por Richard Avedon.
Divido o meu amor por suas fotos juntamente com Ivana.

12.20.2010

Derezzed



Hoje é dia de levar os sobrinhos para assistir Tron Legacy 3D. Virou tradição de natal, ano passado Avatar e este ano Tron. Eu os levo ao cinema, compro todos as guloseímas que quiserem e voltamos todos para casa com o estômago doendo de tanto comer tranqueira e dor de cabeça por causa dos óculos 3D. Delightful. Tudo pela família e tradição.

Na na na naaaaaaaa

12.19.2010

D'outros

Para outros, se fez numa colcha de retalhos. Pedaços costurados, colagem de restos, amontoado de sentimentos, sobras de coisas e muitas idéias desperdiçadas. Fez-se misto de armadura e prisão. Busca caber em si, mas não cabe. Não encaixa, escorre e escapa. Não consegue ser entre outros. Está entre outros, porém existe em outro lugar. Noutro lugar é completo, não é mais pedaços, nem sobras. É apenas sentimento e sonhos. Nada lhe segura ou controla. Flui. Neste lugar descostura cada alinhavo que um dia o prendeu à existência d’outros.


Berlinde de Bruyckere (via Saatchi Gallery)

What kind of Economist are you?


"Arti" minha e idéia roubada daqui. E ai caro leitor amigo, qual é o seu tipo?

Na pesquisa de doutorado pela Unicamp eu digo que no mercado de hoje, o uso estratégico da cadeia de oferta está restrito à eficiência e/ou eficácia dos custos e na excelência em atendimento a clientes em busca do lucro e da vantagem competitiva. Logo, a pesquisa busca melhorar o uso estratégico destas cadeias, em particular, a utilização do conceito de Ecologia Industrial, na busca pela sustentabilidade socioambiental do processo de produção e consumo. O objetivo geral é investigar a integração entre o conceito Ecologia Industrial e a gestão estratégica das cadeias de oferta, uma vez que a sustentabilidade do desenvolvimento consiste em encontrar meios de produção, distribuição e consumo dos recursos existentes de forma mais coesiva, economicamente efetiva, ecologicamente viável, socialmente justa e territorialmente planejada. Deste primeiro doutorado, surgiu a idéia de colocar a teoria explorada na Unicamp em um caso prático. De lá vim parar aqui na Suécia e no Instituto Real de Tecnologia vou por para rodar o que criei no Brasil. Assim, minha pesquisa por aqui neste segundo doutorado virou Sustainable supply chains for bioenergy systems: In today’s market, the strategic use of energy flow management is restricted to cost effectiveness and excellence in customer service in pursuit of profit and competitive advantage. This research project seeks to improve the strategic use of these supply chains, in particular the use of the concept of sustainable supply chain management in order to reinforce the sustainability aspects of forest-based systems and to guarantee their multiple services in promoting sustainable development. Aqui sigo KeynesianDO o dia.

12.14.2010

Meu, meu, meu....todo meu! Meu CASCO

Sim, eu tenho comprei casco. Tenho orgulho do meu casco, apesar dele ainda não ter chegado por estas bandas congeladas da Suécia. Por falar em frio, o inverno ainda não chegou e as temperaturas estão cada vez mais baixas. A cidade toda branca, o cinza na cara dos moradores e os atrasos do metro. A diferença no humor é gritante. No verão, todo muito rindo à toa. Amigavéis na rua e no entra e sai do transporte público. Nestes dias escuros e gelados todos dão coices, mas agora eu tenho casco para me alegrar.
Indulgência em forma de sustentabilidade e estilo. Para comprar o seu iPhone case da CASCO feito à mão com bambu é só clicar aqui querido leitor amigo. Salve a responsabilidade estendida do produtor!

12.13.2010

Matemática e brioches...


Finalmente minha proposta de pesquisa foi aceita pela universidade e estarei registrado no meu segundo doutorado em janeiro. Novo ano, novo país, nova pesquisa. Para comemorar decidi fazer pela primeira vez brioches. Todos que me conhecem de perto sabem da minha fixação por essa delícia resultada da química entre ovos, farinha e manteiga. A receita é simples. Precisa de boa vontade, ingredientes, conhecimento básico em matemática e muque. Nada que vocês queridos leitores amigos não tenham à disposição. A fórmula matemática está aqui para 1kg de farinha, no mais é brincar com as proporções.

Brioche = 100% de farinha + 12 ovos + 60% de manteiga +
15% de açúcar + 2% de sal + 3,5% de fermento biológico

A brincadeira começa juntando todos os ingredientes em uma vasilha grande e funda. Misture-os até formar uma massa homogênea, lisa e que não grude nos dedos. Está é a fase que precisa de muque. Bata a massa sem dó, assim a manteiga se dissolve na bela massa. Cubra a vasilha com um pano úmido para não ressecar e deixe descansar por 20 minutos. Em seguida, rebata a massa por 5 minutos, desta vez abrindo, dobrando, abrindo novamente e redobrando. Faça uma bela trança e deixe-a descansar novamente. Desta vez na geladeira por 2 a 6 horas para que a manteiga contida na massa endureça. Retire do refrigerador, passe ovos batidos na massa e ela está pronta para assar. Eu deixei por 20 minutos em 180 graus Celsius. Aproveitem.

10.16.2010

Ambições

Tive a ambição de ir tomar o melhor café do mundo ao lado da melhor conversa e não fui. Tive a ambição de ir além e desisti. A covardia fez morada em mim por algum tempo. Chegou, sentou e fez-se rainha. Deu ordens, escreveu listas de obrigações, preparou cronogramas, sentou e esperou. Eu, prisioneiro em jaula de vidro vendo a vida passar em retratos e ambições não realizadas. De repente, do nada a covardia fez as malas e foi embora. Deixou nenhuma roupa no armário, nenhum bilhete de despedida, apenas o gosto amargo de promessas não cumpridas na boca. Hoje, sem covardia por perto, sou o Leão em busca de coragem. Depois, tenho que achar um cérebro, pois coração nunca perdi. A única tristeza, a menina de sapatos de rubi está longe daqui apresentando aos estranhos palmeiras.


O Ruby Sneakers foi roubado daqui. Vale muito a pena ver as fotos do PuglyFeet.

9.26.2010

9.18.2010

Florence + The Vacuum Cleaner


Dia de limpeza no meu apartamento em Estocolmo e divido com vocês queridos leitores amigos a trilha sonora do meu Dia de Maria.

9.05.2010

New beginning


Estou de volta ao meu caminho. Voltei para Estocolmo, me registrei na universidade, comecei minhas aulas, dei os meus primeiros passos por aqui. Ainda têm muitas coisas para seguir, conquistar, fazer e conhecer. O melhor de tudo é que não estou sozinho. Nunca estive sozinho, tenho muitos ao meu lado e sou muitos por dentro. Pedaços aqui e acolá. Sou um quebra-cabeças gigantes, um amontoado de peças de Lego soltas no mundo. O frio aumenta, o escuro chegando como sinal do longo e novo inverno. Porém, pela primeira vez não tenho medo da escuridão e agradeço a sua chegada. Välkommen till min värld.


 

aqui tem mais do mesmo

Blog Widget by LinkWithin